Economia e Negócios, Geral, Grande Floripa, Social - 18 Jun 2013 22:37

O lado social, político e econômico das manifestações

Especialistas conversam com o Tudo Sobre Floripa para explicar os protestos
Por: Arielli Secco
 

Confira a íntegra das entrevistas com especialistas a fim de entender o contexto social, político e econômico das manifestações.

Entrevista com o cientista político Eduardo Guerini sobre as mobilizações mundiais.

Tudo Sobre Floripa - O que as redes sociais representam diante das manifestações?
Eduardo Guerini
- As mídias sociais democratizam os canais de acesso à informação para a maioria da população, carente de construções midiáticas que envolvem o cotidiano real e não o imagético das telenovelas , dos telejornais oficiosos e dos jornais impressos mais “realistas que o próprio rei”. A colonização da mídia via concessões dirigidas pela orquestração dos barões da comunicação. No ambiente da “blogosfera”, todos têm o mesmo peso e liberdade singular de expressar sua opinião.

TSF - Como a ação policial pode ser analisada sob o ponto de vista social?
Eduardo - O aparato de segurança pública, com ordens expressas dos governantes, produziram a imagem agonizante de um sistema de combate aos movimentos sociais que requisitam “direitos” esculpidos na Constituição Federal. Quando o canal de comunicação entre Estado e sociedade é interrompido pelo uso “desmensurado”, desproporcional contra jovens e pessoas comuns, significa que temos um caminho longo para efetivação da cidadania. O uso da violência pelo monopólio do poder de polícia do Estado brasileiro, demonstra sem sombra de dúvida que: nossos representantes estão desacreditados e lhes falta capacidade de interlocução com todos os ativistas que promovem este sensacional movimento para construção da cidadania ativa.

TSF - O que essa mobilização social significa?
Eduardo -Em cada momento histórico, são os movimentos sociais que revelam, como um sismógrafo, as áreas de carência estrutural, os focos de insatisfação, os desejos coletivos, permitindo a realização de uma verdadeira topografia das relações sociais.
Os movimentos sociais no Brasil sempre tiveram algo referencial, seja o Movimento Diretas-Já, Movimento pelo Impeachment , Movimento Contra Privatização da Vale (Governo FHC), Movimento Contra Corrupção (Governo FHC e Lula), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (Pela Reforma Agrária). O reajuste da tarifa somado à incompetência dos gestores municipais, estaduais e federais no desenho institucional de um programa de mobilidade urbana (real, não peça de marketing governamental) catalisaram a Revolta dos Descontentes, que chamo sugestivamente de “Outono Brasileiro”, acrescentando o problema específico da “tarifa” para avançar sobre temas mais amplos que envolvem saúde e educação. Vivemos num país sem projetos, sem futuro e sem democracia.

TSF - O que podemos esperar das manifestações em Florianópolis?
Eduardo - No caso de Florianópolis e demais cidades (tal como Balneário Camboriú, Itajaí, Blumenau e adjacências), o resultado é uma ação do poder público municipal em dar respostas condizentes com a bandeira principal dos movimentos sociais que articulam tal manifesto - a redução da tarifa já, a ampliação dos horários, o debate em torno da gratuidade, e, principalmente, a transparência no processo de planejamento para o transporte urbano nas cidades, considerando-se que existe uma Medida Provisória (MP 617, de 31 de maio de 2013) sobre a qual o Governo Federal adota a renúncia fiscal como paliativo para evitar o aumento das passagens de ônibus. A agenda que se constrói as demandas sociais poderá ser ampliada na medida em que os sinais das soluções paliativas se mostrem esgotados, tanto em Florianópolis quanto em outras cidades do Estado e do Brasil.


Entrevista com o economista José Álvaro Cardoso sobre as manifestações mundiais.

Tudo Sobre Floripa - Podemos afirmar que a base de todos os movimentos é a classe média?
José Álvaro Cardoso - A base pode ser a classe média, mas tem uma mistura de classes econômicas e de faixa etária. A predominância é de juventude. Em termos de segmentação, aparentemente, é o que podemos observar sem erro. As reivindicações são divergentes. Em cada região do país tem razões diferentes.

TSF - Qual é a situação econômica que pode ter motivado os protestos?
José Álvaro - Do ponto de vista puramente econômico, você não consegue explicar o fenômeno. Não tem inflação alta e estamos no melhor momento em termos de geração de emprego. É algo surpreendente, inesperado. O curioso é que é um fenômeno que a gente observa nos países desenvolvidos, especialmente na Europa com a crise de 2008. Esse é um ponto que podemos destacar. No Brasil, porém, a situação é um pouco diferente. Apesar do baixo índice de crescimento - 2,9% em 2011 e apenas 0,9% em 2012 -, os indicadores econômicos melhoraram.

TSF - Quais são os números que demonstram isso?
José Álvaro - O índice de empregos regulares registrado no Brasil em 2012 foi quase pleno. Isso é algo inédito. Na década de 90, nas regiões metropolitanas, tínhamos um índice de 25% de desemprego. No ano passado, baixou para cerca de 5%. Partindo para uma análise comportamental, o desemprego sempre atinge mais a juventude. Na Europa, por exemplo, 25% dos desempregados são jovens, enquanto o índice total de desemprego é de 15%.

TSF - Mas o que isso pode representar, então, diante das manifestações?
José Álvaro - Posso afirmar que não há uma relação mecânica entre economia e aspectos políticos. O que podemos perceber é que, com o bom índice de empregos, o momento é encorajador para as pessoas se mobilizarem. Normalmente, é o que acontece. Os períodos de mobilização mais fortes dos trabalhadores ocorrem justamente quando a economia de uma forma geral vai bem, porque eles se sentem encorajados a saírem às ruas e lutarem pelos seus direitos.

TSF - Por que os indicadores econômicos são favoráveis e muitos comerciantes, principalmente em Florianópolis, apontam descontentamento com as vendas?
José Álvaro - É um mistério da economia brasileira. O comércio vem crescendo acima da economia. O comércio cresce mais rápido que o PIB, com 7% em 2012 frente aos 0,9% que citei anteriormente. Isso mostra um problema do Brasil, porque parte do consumo está sendo suprida por importações.


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